
O encontro, realizado na última quinta-feira, dia 28 de maio, em São Paulo, foi uma parceria com os organizadores e autores do livro "Fundos de Investimento: Um Guia Prático para o Mercado Brasileiro".
A VERT reuniu, na última quinta-feira, dia 28 de maio, em São Paulo, gestores, administradores, advogados e especialistas do mercado de capitais para um debate amplo sobre o presente e o futuro dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil. O evento foi realizado em parceria com os organizadores e autores do livro "Fundos de Investimento: Um Guia Prático para o Mercado Brasileiro", referência técnica e prática da indústria nacional de fundos.
Ao longo de três painéis, os participantes discutiram o boom do crédito privado, a gestão de riscos em operações estruturadas e os desafios jurídicos e tributários da Resolução CVM 175. Para a VERT, o evento reflete um posicionamento claro: o desenvolvimento do mercado passa pelo diálogo entre os grandes players, pela troca de experiências e pela construção coletiva de um ambiente mais robusto, transparente e acessível.
O primeiro painel foi moderado por Hudson Bessa, Diretor Acadêmico da HB Escola de Negócios, e reuniu Gabriel Lopes, Sócio e responsável pelo time comercial da VERT, João Peixoto, Fundador e CEO da Ouro Preto Gestão de Recursos, e Leandro Andrade, CEO da Orram Gestão de Recursos. A discussão debateu as causas e consequências do crescimento acelerado dos FIDCs no Brasil, que devem atingir a marca de um trilhão de reais em patrimônio líquido no decorrer deste ano. Os participantes identificaram três transformações estruturais que tornaram esse crescimento possível: a democratização da infraestrutura bancária e tecnológica, a descentralização do funding e o surgimento de novos canais de relacionamento comercial corporativo, antes restritos ao sistema bancário tradicional.
"A tecnologia para fazer operações pulverizadas é uma condição sine qua non. Quem não tiver tecnologia não consegue operacionalizar operações de alta frequência de sessão e conciliação. Mas a nossa visão vai além da tecnologia: existe um lado de conhecimento e de atendimento que é muito importante, e que a tecnologia não substitui", avalia Gabriel Lopes.
A discussão também trouxe à tona o fenômeno do embedded finance, a tendência de empresas com grande domínio de mercado em seus setores criarem verticais financeiras próprias, usando os FIDCs como veículo para operacionalizar crédito para clientes, fornecedores e parceiros. Plataformas digitais, redes de varejo e empresas de médio e grande porte foram citadas como exemplos concretos desse movimento, que deve multiplicar o número de fundos em operação no país nos próximos anos. O papel da tecnologia foi tratado não como diferencial, mas como condição de existência para operações pulverizadas de alta frequência, ao lado dos riscos do crescimento acelerado: a migração de inadimplência para fora do sistema bancário tradicional, a assimetria de informação entre estruturadores e investidores de varejo e a necessidade de uma indústria de prestadores de serviços cada vez mais especializada para suportar esse ecossistema.
O segundo painel foi moderado por Filipe Ferreira, Doutor em Administração pela FEA-USP e Professor em Pós-Graduação em Finanças na FIA e no Insper, e contou com a participação de Marcelo Santos, Diretor de iscos da VERT, e André NG, Sócio e Diretor de Operações e Risco na 3R Investimentos. Os participantes aprofundaram a discussão sobre gestão de risco em FIDCs em um cenário de expansão acelerada da indústria, debatendo a redistribuição de responsabilidades entre gestor e administrador promovida pela Resolução 175 e apontando que, apesar dos avanços regulatórios, a adaptação prática ainda está em curso.
A precificação dos ativos de crédito privado foi outro tema central. A baixa liquidez secundária desses papéis dificulta a formação de preços de referência, mas a crescente disponibilidade de dados públicos e o desenvolvimento de metodologias mais sofisticadas de avaliação, incluindo a transição para modelos de perda esperada, foram apontados como caminhos concretos de evolução. "Essa redistribuição de forças e de responsabilidades é um avanço significativo, não só para gestores e administradores, mas sobretudo para o investidor, que passa a ter uma segurança maior. A gente trabalha para ele. Ainda assim, vai ter um processo natural de adaptação", observa Marcelo Santos.
A mesa também discutiu como preparar o FIDC para o investidor de varejo, reforçando que a abertura promovida pela 175 é um avanço importante, mas exige que toda a cadeia de prestadores de serviços assuma um papel ativo de educação e transparência. A inteligência artificial foi mencionada como ferramenta com potencial real para automatizar processos de backoffice e qualificar análises de risco, mas com clareza sobre seus limites quando se trata de julgamento, conhecimento acumulado e relacionamento.

O terceiro painel foi moderado novamente por Hudson Bessa e reuniu Renata Manhães, Diretora de Jurídico e Compliance da VERT, Andrea Videira, Diretora da VERT, e Guilherme Cooke, Sócio do Lobo de Rizzo Advogados. Os participantes debateram as dificuldades da implantação da 175 no dia a dia das operações, com destaque para a responsabilidade fiscal do administrador, que permanece mesmo com a divisão formal de atribuições, criando situações em que o administrador precisa acompanhar decisões do gestor sem ter participado delas. O tema da jurisprudência sobre fundos de investimento revelou um cenário de incerteza relevante: o judiciário brasileiro ainda demonstra desconhecimento da natureza jurídica dos fundos, o que gera decisões imprevisíveis e reforça a importância da autorregulação como espaço de construção de padrões e boas práticas.
"Eu vejo uma norma muito mais moderna no sentido de viabilizar muito mais produtos. O processo de elaboração da 175 foi muito interessante, porque teve um engajamento de muitas casas e muitas opiniões. A CVM se abriu muito a ouvir o mercado", afirma Renata Manhães.
A insolvência civil como regime aplicável aos fundos também foi discutida em profundidade, com atenção às implicações práticas para o administrador em situações de estresse: a necessidade de conhecer a operação do gestor, de entender a carteira e de conduzir processos para os quais nem todos os administradores estão preparados. "A gente já conhecia os nossos parceiros, mas talvez não tão a fundo. Como administradora, a gente vai precisar conhecer a cozinha operacional de quem divide responsabilidade conosco. É o início de uma sociedade, e é construindo esse caminho juntos que a gente vai entregar o melhor resultado para o investidor", complementa Andrea Videira. O painel encerrou com uma virada para as oportunidades: a possibilidade de subclasses dentro dos FIDCs, a abertura para o varejo e a modernização regulatória foram reconhecidas como avanços reais que ampliam o leque de produtos e estruturas viáveis no mercado.

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